O link encurtado é tratado como material de consumo. Lança a campanha, colhe o tráfego por dois dias, esquece. É sobre essa suposição que se apoiam a avaliação de resultados, o planejamento de material impresso e a decisão de reaproveitar um endereço antigo numa promoção nova.
Testamos a suposição com nossos próprios dados. Ela não se sustenta.
Cerca de um terço dos cliques chega nas primeiras 24 horas. Quase um quinto chega depois de mais de seis meses. O link mediano continua recebendo tráfego por 153 dias.
Abaixo, como medimos e o que decorre disso.
Metodologia
Não dá para pegar todos os links: um criado no mês passado não teve chance de acumular cauda longa, e a média despencaria. Por isso a análise usa uma coorte.
Coorte: links cujo primeiro redirecionamento registrado ocorreu entre 24 e 18 meses atrás. Cada um teve no mínimo 18 meses para acumular tráfego, então a amostra não está truncada à direita.
Tamanho: 5.946.816 links e 144.404.380 redirecionamentos na janela de observação de 18 meses.
A idade do clique é contada a partir do primeiro redirecionamento registrado. A estatística de redirecionamentos não guarda a data de criação, então o primeiro clique serve como aproximação. Para links publicados e distribuídos de imediato, a diferença é desprezível.
Filtragem: nenhuma. Não foram removidos links de teste, links de serviço nem tráfego automatizado. São números brutos.
A duração de vida foi calculada à parte, numa amostra mais ampla: 4.347.730 links com pelo menos dez redirecionamentos, medindo o intervalo entre o primeiro e o último clique.
A curva de decaimento
| Idade do clique | Redirecionamentos | Fatia | Acumulado |
|---|---|---|---|
| Primeira hora | 22.841.098 | 15,82% | 15,82% |
| 1–24 horas | 23.355.444 | 16,17% | 31,99% |
| 1–7 dias | 23.096.479 | 15,99% | 47,99% |
| 7–30 dias | 19.234.965 | 13,32% | 61,31% |
| 30–90 dias | 15.776.935 | 10,93% | 72,23% |
| 90–180 dias | 12.967.197 | 8,98% | 81,21% |
| Mais de 180 dias | 27.132.262 | 18,79% | 100% |
Três pontos merecem leitura atenta.
O primeiro dia entrega 32%, não 80%. Se você avalia a campanha pelo relatório que encontra na manhã seguinte, está vendo cerca de um terço do que ela vai render.
A primeira semana não cobre nem metade — 47,99%. A janela padrão de relatório corta o resultado quase exatamente ao meio.
A cauda além de 180 dias não é cauda. Com 18,79%, ela é maior que a primeira hora e maior que qualquer outra faixa isolada, exceto o primeiro dia inteiro. É um quinto de todo o tráfego chegando quando ninguém mais lembra que houve campanha.
Repare no formato: primeira hora, faixa de 1 a 24 horas e faixa de 1 a 7 dias são quase idênticas — 15,8%, 16,2% e 16,0%. O primeiro dia não é um pico sobre fundo plano. O decaimento só começa depois da primeira semana, e avança devagar.
Duração de vida
A segunda medição cobre 4,35 milhões de links com dez ou mais redirecionamentos. Ela capta amplitude, não intensidade: o tempo decorrido entre o primeiro e o último clique.
| Percentil | Duração |
|---|---|
| Mediana | 153 dias |
| 75 | 509 dias |
| 90 | 919 dias |
Metade dos links segue recebendo cliques por mais de cinco meses. Um quarto, por mais de um ano e meio. Um em cada dez, por dois anos e meio.
Omitimos deliberadamente o percentil 99. Os dados são retidos por 42 meses e o valor esbarra nesse teto: ele mede a política de retenção, não o comportamento dos links.
Amplitude sozinha é métrica fraca: um link com nove cliques no primeiro dia e um único no dia 150 formalmente vive 150 dias. Mas a curva acima mostra que não se trata de retardatários isolados — 18,79% do volume total está além do meio ano. As duas medições se confirmam.
69% dos redirecionamentos não trazem referenciador
Corte separado dos últimos 12 meses: 723.434.375 redirecionamentos.
| Origem | Redirecionamentos | Fatia |
|---|---|---|
| Sem referenciador | 499.673.000 | 69,07% |
| Redes sociais | 174.908.252 | 24,18% |
| Outros sites | 41.489.411 | 5,74% |
| Buscadores | 7.363.712 | 1,02% |
O essencial: «sem referenciador» não significa «tráfego direto». O cabeçalho Referer some por vários motivos técnicos, e quase todos dizem respeito justamente a links encurtados:
- mensageiros abrem o link em navegador embutido e não enviam referenciador;
- um QR code não tem como enviar: não houve página de origem;
- navegadores removem o cabeçalho por padrão na transição de
httpsparahttp; - a
Referrer-Policydo site de origem pode suprimi-lo por completo; - aplicativos nativos entregam o link ao handler do sistema, contornando o contexto do navegador.
A conclusão prática é dura: a atribuição de links encurtados está quebrada por padrão. Dois terços do tráfego chegam sem origem declarada, e nenhum encurtador conserta isso, porque o cabeçalho simplesmente não existe. O que funciona é a marcação dentro do próprio endereço, ou seja, parâmetros UTM. Se você separa por canal o tráfego de links curtos usando o referenciador, está separando 31% e arquivando o resto como direto.
Dispositivos
| Tipo | Redirecionamentos | Fatia |
|---|---|---|
| Celular | 384.397.161 | 53,13% |
| Computador | 273.751.126 | 37,84% |
| Não identificado | 64.739.302 | 8,95% |
| TV | 547.968 | 0,08% |
A fatia de desktop é maior do que se esperaria de links que circulam sobretudo por mensageiros e redes sociais. Tablets não aparecem como categoria própria: o detector não os classificou e eles ficaram distribuídos entre celulares e computadores. A fatia de tablets não pode ser deduzida destes dados.
O que decorre disso
Avaliar a campanha em 24 horas é ver um terço do resultado. Se a decisão de prorrogar ou encerrar sai na manhã seguinte, ela sai com 32% dos dados. Um horizonte razoável é no mínimo uma semana, e um mês para conteúdo de vida longa.
Um QR code impresso sobrevive à campanha. Embalagem, placa, cartão e adesivo de vitrine duram anos, e os cliques — como mostra a curva — também. O código QR deve apontar para algo que daqui a dois anos ainda faça sentido, não para um 404 de uma landing desativada.
Não reaproveite um link curto numa promoção nova. A tentação é clara: a campanha acabou, o endereço ficou livre. Os dados dizem que não ficou: as pessoas continuam chegando por ali e vão parar onde não pretendiam. De quebra, sua campanha nova herda cliques alheios.
O fechamento de um encurtador quebra anos de tráfego, não o de ontem. Quando um serviço é desligado, leva junto links que continuariam funcionando por anos — e você nem perceberia, porque parou de acompanhá-los. É esse o argumento a favor de um domínio próprio: os endereços continuam seus, e trocar de fornecedor vira uma alteração de DNS em vez da reescrita de tudo o que já foi publicado.
Meça conversões, não cliques. Como a maioria dos redirecionamentos não traz referenciador e os cliques se espalham por meses, a única forma confiável de entender o retorno é o rastreamento de conversões com marcação dentro do próprio link.
Limitações
Um relatório honesto precisa dizer onde deixa de valer.
São dados de um único serviço. Perfil de público, mix de canais e tipos de link variam em outros lugares. Não afirmamos que 32% no primeiro dia seja constante do setor; afirmamos que, sobre 144 milhões de redirecionamentos, a suposição dos dois dias não sobrevive ao contato com os dados.
A idade do link é aproximada pelo primeiro clique. Links criados com antecedência e publicados semanas depois introduzem viés sistemático de subestimação. A magnitude não pode ser estimada com estes dados.
Nada foi filtrado. Tráfego automatizado permanece na amostra: rastreadores, pré-visualizadores de mensageiros, monitoramento. Em parte dos links isso pode afetar visivelmente o formato da curva, sobretudo nas primeiras horas, quando os pré-visualizadores expandem o link. Ainda não separamos essa parcela.
A cauda está cortada pela retenção. Os dados vivem 42 meses. O que acontece com os links além disso não é visível aqui — é possível que sigam funcionando por mais tempo.
Amplitude e intensidade são coisas diferentes. Uma mediana de 153 dias diz que redirecionamentos continuaram chegando, não que fossem muitos. Só a curva descreve intensidade.
Em resumo: link encurtado não é consumível de dois dias, e sim um objeto com vida de vários anos que quase ninguém acompanha depois que a campanha termina. Tecnicamente ele é simples — um redirecionamento HTTP comum — mas as consequências dessa simplicidade são longas. O lado prático está tratado à parte em links curtos: vantagens e desvantagens.